Livro do Dia: "Solaris" — O Romance Que Ninguém Consegue Adaptar Direito para o Cinema

E se a humanidade realmente encontrar inteligência extraterrestre um dia — e não conseguir fazer uma única pergunta? Não porque não há palavras, mas porque as palavras simplesmente não funcionam.

Isto não é apenas ficção científica—é uma meditação filosófica sobre os limites da compreensão humana. "Solaris" (1961) de Stanisław Lem é um daqueles livros que nos deixa sentados em silêncio com a capa fechada nas mãos muito depois de termos terminado a leitura.

Sobre o que é o romance

Cientistas trabalham numa estação orbital que orbita o planeta Solaris, tentando estabelecer contacto com o misterioso Oceano—uma vasta substância que cobre toda a superfície do planeta.

O Oceano parece vivo. Mas em vez do "contacto" esperado, responde materializando memórias reprimidas.
O escritor Stanisław Lem com uma boina e óculos, ao lado de uma capa de livro com uma mancha amarelo-branca
Stanisław Lem e a capa do romance "Solaris"
O psicólogo Kris Kelvin chega à estação orbital e percebe imediatamente que algo correu mal. Um cientista está morto, outro à beira da loucura. E pelos corredores anda uma mulher que se parece exatamente com a sua amante falecida. Só que ela não pode ser real. Ou pode?

O que a torna fascinante

"Solaris" não é sobre lasers, batalhas alienígenas ou sequer tecnologia. Este é um romance sobre um ser humano confrontado com algo tão incompreensivelmente "outro" que destroça não apenas teorias científicas, mas a sua própria psique.
O rosto do ator Donatas Banionis numa luz azul, com ele segurando uma rapariga nos braços ao seu lado
Cartaz do filme "Solaris" de Andrei Tarkovsky
Lem evita deliberadamente o antropomorfismo: o Oceano não é uma criatura, deus ou monstro. É uma forma de vida com a qual não conseguimos comunicar usando linguagem familiar. E essa é a parte mais aterrorizante. Não somos o centro do universo. Nem sequer conseguimos sempre perceber quão pouco compreendemos.

Adaptações cinematográficas

O tema de "Solaris" atraiu repetidamente cineastas. Em 1972, Andrei Tarkovsky fez um drama filosófico que ganhou o Grande Prémio em Cannes. O seu "Solaris" fala de amor, dor e memória—e sobre a Terra ainda mais do que sobre o espaço.

Em 2002, foi lançada uma versão americana de Steven Soderbergh com George Clooney—sombria e estética, mas segundo o próprio Lem, demasiado "humanizada".

Nenhuma adaptação, disse o escritor, conseguiu captar o principal—a "alteridade" de Solaris.
Cartaz mostrando o ator George Clooney a beijar a atriz Natascha McElhone, cartaz mostrando o ator de pé num corredor de nave espacial
Cartazes do filme "Solaris" de Steven Soderbergh
Como autor [do romance] permito-me repetir que apenas queria criar uma visão de um encontro humano com algo que certamente existe, de forma poderosa talvez, mas que não pode ser reduzido a conceitos, ideias ou imagens humanas. É por isso que o livro se intitula "Solaris" e não "Amor no Espaço Sideral", comentou o autor sobre a adaptação de Soderbergh.

Concordo—este livro não é sobre amor em gravidade zero, mas sobre os limites da humanidade. A promessa de um contacto que nunca será mútuo. E talvez essa seja a ficção científica mais honesta de todas. Anteriormente no estrelina.com, abordámos "The Girl with the Dragon Tattoo"—nem David Fincher conseguiu resistir àquele.
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