É fácil esquecer que por trás das obras-primas aclamadas de del Toro, antes dos Oscars e da fama mundial, ele fazia filmes estranhos, íntimos, quase artesanais—aqueles onde já se podia identificar o seu estilo sombrio característico a tomar forma.
O realizador completou 61 anos a 9 de outubro, e é a altura perfeita para revisitar o seu trabalho inicial—os filmes de que quase ninguém fala hoje.
Um sobre imortalidade mecânica, o outro sobre baratas mutantes que decidem querer ser humanas.
Cronos (1993)
Elenco: Federico Luppi, Ron PerlmanPontuação no Rotten Tomatoes: 88%
México, orçamento modesto, e del Toro aos 29 anos a decidir virar a mitologia vampírica do avesso.
Em 1536, um alquimista cria um dispositivo chamado "Cronos"—uma engenhoca mecânica estranha que parece uma aranha dourada. Concede vida eterna, mas exige pagamento: sangue.
Os críticos não sabiam o que fazer com isto na altura. Ainda não sabem bem, na verdade. Alguns escreveram que "o filme desmorona-se na segunda metade", outros chamaram-lhe "uma estreia brilhante que deveria ser obrigatória nas escolas de cinema". E alguns, como o Philadelphia Inquirer no RT, disseram simplesmente: "É uma abordagem diferente aos vampiros. Fixe."
Cronos ganhou o Prémio da Crítica em Cannes e marcou a primeira declaração de intenções de del Toro: contos de fadas sombrios onde os monstros não são os verdadeiros monstros—as pessoas é que são.
Hoje, o filme parece um pouco ingénuo, mas já se sente o futuro mestre em ação—aquele que mais tarde faria "The Devil's Backbone" e "Pan's Labyrinth". Até Ron Perlman está aqui—o início da sua longa parceria criativa.
Mimic (1997)
Elenco: Mira Sorvino, Jeremy Northam, Giancarlo GianniniPontuação no Rotten Tomatoes: 67%
Nos anos 90, Guillermo estreia-se em Hollywood—e logo se cruza com o produtor Bob Weinstein.
Um argumento sobre baratas gigantes mutadas através de modificação genética transforma-se num híbrido de ação e terror, e del Toro tem de lutar por cada frame.
O enredo é direto: cientistas criam uma raça especial de insetos para travar uma epidemia. Mas a "raça Judas" revela-se mais esperta do que esperado.
Passam três anos—e no subsolo, surgem novos mutantes que não só sobreviveram, como aprenderam a imitar humanos.
Curiosidade: segundo o IMDb, del Toro e Weinstein chocaram constantemente durante a produção. Weinstein exigia sempre adições, o realizador resistia. Nunca mais trabalharam juntos.
Com o tempo, "Mimic" tornou-se um favorito de culto entre os fãs de terror. Alguns chamam-lhe "o filme mais fraco de del Toro", outros "um terror subestimado com atmosfera anos 90 perfeita". Mas quase todos concordam: sem este filme, não haveria "The Devil's Backbone" nem "Crimson Peak".
Tanto "Cronos" como "Mimic" são filmes irregulares, às vezes estranhos, mas belos e atmosféricos. Já contêm tudo aquilo pelo qual o mundo viria a amar del Toro: a capacidade de contar histórias assustadoras com ternura. Anteriormente no estrelina.com, falámos de "Maelström": o filme mais estranho de Denis Villeneuve, onde um peixe narra a história.